O que muda? E o que fica?

Na última semana do ano, tive um encontro com amigas queridas. Daqueles encontros que só acontecem nessa época, quando ficamos muito tempo sem nos ver. Uma amiga nos recebeu em sua casa nova, contando sobre a mudança e nos presenteando com uma mesa cheia de delícias para saborear. A vista era de tirar o fôlego: uma paisagem conhecida por todas nós. Crescemos naquela cidade do interior, olhamos para aqueles lugares inúmeras vezes e, ainda assim, lá do alto, foi uma belíssima surpresa.
Entre novidades, conversas sobre filhas, relacionamentos, planos para o próximo ano, desafios e surpresas vividas ao longo do ano que passou, uma amiga trouxe uma ideia que me fez refletir. Ela, espontaneamente, comentou sobre como as coisas na vida mudam rápido. De uma hora para outra, tudo pode mudar e a vida ficar diferente.
Minha reação naquele momento foi de estranheza. Perguntei a elas: “vocês têm mesmo a sensação de que tudo muda tããão rápido?”. Compartilhei como percebia que vários pensamentos e temas na minha vida se repetiam. Minhas metas para 2026? Muitíssimo semelhantes às que desejei em 2025. E ali, naquele momento, fomos brincando com essas ideias: coisas que continuam parecidas e coisas que mudaram em comparação à nossa adolescência — que foi há mais de 17 anos. Rendeu boas risadas e aquela sensação de conexão que amizades de longa data nos proporcionam.
Inspirada também pelo ciclo que se inicia com o novo ano, essas ideias sobre mudanças ficam fervilhando na minha mente. Passei a pensar sobre como a permanência e a transformação coexistem a todo momento. Não como opostos, mas caminhando juntas, em um movimento contínuo.
Vejo muitas mudanças ao longo da vida: nas pessoas com quem convivo, nos lugares que frequento, nos gostos. Algumas mudanças são pequenas, dessas que se instalam na rotina. Por muitos anos, detestava só pensar em tomar xícara de leite. Era algo que não gostava, que não fazia questão de querer. Em 2025, sem planejamento ou decisão consciente, senti desejo de tomar leite e passei a tomá-la todos os dias. Sempre à tarde, quase como um ritual. Um gesto simples, repetido, que virou pausa no meio da tarde, um momento de presença. Não foi o leite que mudou — fui eu. E talvez essa seja uma das formas mais sutis de perceber que algo em nós se transforma.
Outras mudanças chegam de maneira muito menos discreta. Elas atravessam a vida com intensidade e nos reorganizam por dentro. No ano que passou, meu pai faleceu. Ainda não sei dimensionar o impacto dessa perda, nem sei se isso é algo que um dia se mede. Sei apenas que muitos momentos passaram a ter um peso diferente sem a sua presença. Algumas cenas do cotidiano ganharam silêncio, outras exigiram adaptação. A vida segue, mas segue de outro jeito. E aprender a reconhecer esse “outro jeito” também é parte do processo de mudança.
E, ao mesmo tempo, há aquilo que permanece. O desejo de movimentar o corpo me acompanha há muito tempo. Começou na infância, com o balé, atravessou fases de musculação, corrida e dança. Existem fotos antigas minhas fazendo agachamento na beira da praia, quase como se o corpo já soubesse, muito antes de mim, o que seguiria sendo importante. Hoje, me surpreendo ao gostar de fazer crossfit. Mudam os contextos, mudam as formas, mas o valor permanece: o cuidado e conexão comigo mesma por meio do movimento.
Permanece também o desejo de estar com as pessoas que amo. Um dos meus momentos favoritos da vida: sentar à mesa, conversar sem pressa, rir das histórias que lembramos e do que acontece ali, naqueles instantes. O desejo de nutrir vínculos mesmo quando o tempo passa e quando a vida muda.
A vida não me pede que eu escolha entre aceitar o que é ou buscar mudança. Ela me convida a sustentar as duas coisas, uma ao lado da outra. Sentir os desconfortos e seguir fazendo o que importa. Estar aberta ao novo sem perder o centramento. Podemos mudar comportamentos, rotas e ritmos e, paradoxalmente, nos reconhecer cada vez mais como quem somos.
Como é bom mudar.
Como é bom permanecer.

