Uma Maratona entre Chuva, Sangue e o Dia da Mulher

Olá, meu nome é Cristiana e sou a mais nova integrante do grupo de Contextuais do CEFI. E logo eu fui incumbida de escrever o texto dessa semana — em um grupo formado apenas por mulheres — justamente na semana do dia 8 de março.
Confesso que refleti bastante sobre os temas que traria no meu primeiro texto e pensei que gostaria que ele fosse mais informal e não apenas trazendo informações técnicas e tediantes como as que costumamos encontrar em textos acadêmicos.
Na segunda-feira, dia 9, no encontro semanal do núcleo de contextuais foi quando me toquei sobre o Dia Internacional da Mulher. Não pense que não passei pelos mais diversos posts comentando sobre o dia e as mais diversas mensagens nos grupos de WhatsApp da família com uma imagem bonita, flores e bla bla bla.
Também lembro-me de zapear informações interessantes como sobre a primeira mulher a participar de uma maratona (Kathrine Switzer) em 1967, disfarçada de homem, que chamou minha atenção por curiosidade.
Mas sim, devo confessar ao leitor que geralmente nessas datas costumo ficar um pouco cansada com esses tsunamis de informações e comentários sobre o “dia da mulher”, seja com felicitações, seja para discutir sua existência, sua importância ou o contrário.
Por favor, não me entenda mal, só estava mesmo cansada e não sei se queria usar esse tempo para refletir sobre esse assunto, estava querendo mesmo só ver os vídeos engraçados de animais, nos mais diversos contextos, sendo dublados por vozes humanas, como se pensassem como nós (eu adoro esses!).
Enfim, Feliz Dia da Mulher e vida que segue!
Foi só após o encontro de segunda no Núcleo que parei realmente para refletir sobre esse tema e talvez tentar entender de forma mais clara o que ele me faz pensar. Se o leitor, como eu no domingo, estiver farto de discussões profundas e só quiser relaxar um pouco, prometo tentar não problematizar demais. Vou apenas contar uma anedota recente e compartilhar algumas reflexões que surgiram a partir dela.
Vamos ao ocorrido.
No último sábado, dia 7, estávamos eu, minha mãe, de 69 anos,meu pai, de 72 anos e meus dois sobrinhos, uma menina de 8 anos e um menino de 5 anos, no único restaurante que servia almoço da cidade de 35 mil habitantes onde eu nasci, no interior de São Paulo. Eu estava bem animada ao vê-los, já que atualmente moro em Porto Alegre e faço visitas em raras ocasiões.
Ao sair do restaurante uma chuva torrencial começou e já havíamos esperado algum tempo ela diminuir para acessarmos o carro que estava estacionado do outro lado de uma avenida. Eu senti que não teria problema em me molhar, mesmo com a chuva mais forte, para poder sair logo daquela espera que já me entediava e aproveitar mais o dia com minha família.
Juntei a coragem e saí na chuva em direção ao carro com meus óculos embaçando, crente que seria a heroína do dia para os meus sobrinhos e meus pais (a SUPER TITIA que foi buscar o carro na chuva forte e que nos levaria para casa).
Mas claro eu não estaria aqui contando essa história para vocês se tudo tivesse ocorrido bem e meus planos não fossem enxurrada abaixo após me acidentar bizarramente ao abrir a porta do carro e dar com ela direto na minha testa.
(Cenas fortes para os leitores mais sensíveis a seguir)
No início senti apenas uma dor comum — algo relativamente esperado para alguém que, como eu, tem uma personalidade um tanto desastrada e vive colecionando roxos pelo corpo.
Entrei no carro, um pouco atordoada com a batida, até sentir um líquido quente escorrendo pela face. Agora, lembrando-me da cena, acho que consigo descrever como uma sensação de frio na espinha, não pelo sangue, mas por saber que essa área da testa sangra bastante, mesmo em cortes pequenos, já imaginando o estrago visual que aquilo faria nos expectadores.
Naquele momento, consigo me lembrar de alguns pensamentos: preciso de algo para estancar o sangue, evitar sujar o carro todo e voltar para o restaurante de forma minimamente apresentável.
Até poderia voltar a pé, mas isso seria desconfortável demais para mim. Imagine voltar para o restaurante derrotada, toda ensanguentada na frente dos meus pais e dos meus sobrinhos, assustar todos eles (e os 15% da população da minha cidade que se encontrava naquele restaurante) com uma lesão que eu sabia ser mais feia do que grave. E pior: passar pela vergonha de admitir que fui incapaz de concluir o desafio que me propus a fazer.
Talvez isso soe um pouco orgulhoso demais — e, olhando agora com certa distância, talvez realmente tenha sido. Mas para entender melhor esse momento, talvez seja importante contextualizar um pouco da minha história.
Cresci em uma família conservadora e católica. Meus pais nasceram em área rural e após a mudança para a cidade, construíram um comércio que sempre sustentou nossa família.
Somos três filhas mulheres e crescer em uma casa com três meninas também significou escutar algumas frases bastante comuns na época e no contexto em que vivíamos:
“Coitado do seu pai que vive nessa casa como único homem”,
“olha como dirige mal, deve ser uma mulher”,
“Menina brinca com boneca”,
“Menina usa rosa, não azul”,
“Fecha essas pernas quando senta”,
“Mulher ajuda com a louça, se você fosse homem, não precisaria”.
E várias outras mais que eram comuns na época em uma cidade como aquela.
Hoje, proponho ao leitor analisar comigo essa fala de forma a evitar julgamentos precipitados e apenas desenvolvermos nossa reflexão trazendo algumas experiências minhas.
Mas, voltando à história.
Lá estava eu, sentada no banco do motorista, com um corte na testa sangrando e ainda com a missão de buscar minha família.
Olhei ao redor procurando algo para estancar o sangue e não encontrei nenhum pano. Então desabotoei meu vestido até a altura da barriga, puxei um pedaço do tecido, limpei o sangue e mantive pressão sobre o corte com a mão esquerda.
Com a mão direita, comecei a dirigir de volta ao restaurante.
Quando cheguei, meus pais e meus sobrinhos entraram no carro. Demorou alguns segundos até perceberem que algo estava estranho.
Foi quando comecei a explicar o que havia acontecido.
Neste momento, lembro-me de não ter coragem de olhar diretamente para minha mãe ao lado, no passageiro, mas puxando pela lembrança revejo uma imagem, real ou imaginária, do seu olhar de desespero e preocupação soltando a frase:
“Você devia ter pedido para o seu pai ir buscar o carro”.
Hoje, caro leitor, tenho muita tranquilidade em compreender essas falas e entender como são resultados de contextos, vivências e de regras sociais.
No momento, é claro, senti uma mistura de raiva, dor e teimosia.
Respondi imediatamente que não tinha que pedir nada para meu pai, de 72 anos. Eu era perfeitamente capaz de buscar o carro e levá-los para casa.
Por dentro, talvez eu estivesse com vontade de chorar e pedir colo. Mas desistir naquele momento significaria, para mim, algo maior do que simplesmente entregar a direção do carro.
Concluir aquela pequena tarefa parecia representar outra coisa: mostrar que fatores biológicos ou sociais não determinavam o que eu poderia ou não fazer. Eu precisava mostrar para minha mãe e minha sobrinha que a gente é capaz!
Ou será que não?
Nesse momento, entendi mais profundamente a fala de Kathrine, a primeira mulher a terminar uma maratona. Após ser descoberta e tentarem retirá-la à força da competição, por acreditarem que mulheres não eram capazes de fazer esse tipo de prova, Kathrine afirmou que precisaria terminar, ainda que se arrastando, com medo de que, se não o fizesse, as mulheres nunca teriam a oportunidade de competir.
Quantas coisas acontecem sem a gente se dar conta?
Agora, expandindo essa reflexão, consigo me recordar de um punhado de coisas que tive medo de fazer ou que nem tentei por ter como certo para mim que não conseguiria, que não tinha essa habilidade.
Ou ainda mais: quantas coisas fiz só para provar a mim mesma — ou aos outros — que eu era capaz, sem sequer refletir se era realmente isso que eu queria ou me permitir ser vulnerável?”
Talvez o mais interessante seja perceber como várias influências operam nossos comportamentos. Elas fazem parte da nossa história, da cultura em que crescemos e das regras sociais que aprendemos ao longo da vida.
Mas como é gostoso adentrar um pouquinho — seja na terapia, seja nos meus devaneios — e perceber essas “forças internas ou externas” que influenciam minhas decisões, muitas vezes sem que eu me dê conta.
Acredito que refletir um pouco sobre essas “forças que nos regem” possa criar mais espaço para um pouco de liberdade.
Para concluir minha anedota, não me arrependo de ter seguido em direção à casa de meus pais, afinal, ainda que “meio capenga” e de forma que considero cômica, consegui concluir minha pequena maratona, entregar todos a salvo e remendar meu machucado na testa com Supercola e micropor (sim, não é metáfora, pode fechar lesão com essa cola mesmo, mas não recomendo fazer isso sem orientação, tudo bem?).
Espero que minha mãe e minha sobrinha possam, um dia, lembrar desse feito e sentir o mesmo que eu sinto ao lembrar de Kathrine: é óbvio que o simples fato de ser mulher não nos impede de concluir maratonas. E mais do que isso: podemos escolher quais delas realmente valem a pena correr.
Para mim, o Dia da Mulher serviu para olhar com um pouco mais de curiosidade para os contextos que moldaram minha história — e que continuam influenciando, muitas vezes silenciosamente, as escolhas que faço todos os dias.

