Faculdade do Cefi

Temas Atuais

Quais histórias sobre a idade estamos carregando?

Há algumas semanas escutei a seguinte frase: “você está muito bem para a sua idade”.

Na hora não reagi muito. Estava em uma festa, com música, amigos, várias conversas acontecendo ao mesmo tempo. A frase passou quase despercebida.

E naquela mesma noite, escutei novamente a mesma frase, “você está muito bem para a sua idade”. E como era a segunda vez que escutava, aquelas palavras tomaram a minha atenção com mais intensidade. Estranhei um pouco, até comentei em tom de brincadeira, ‘como assim para a minha idade?’, e logo segui para fazer outra coisa. O que muito provavelmente foi dançar com as minhas amigas, que adoro fazer. 

E depois de alguns dias segui pensando naquilo que havia escutado, assim, de forma tão espontânea e inusitada para mim. Meu desejo não seria entender a intenção das pessoas que me falaram aquilo, e sim observar e brincar com os desdobramentos que minha mente poderia criar a partir daqueles sons – ou palavras – como costumamos dizer. 

A primeira reflexão que fiz sobre esse tema foi pensar: como seria esperado que eu estivesse com 34 anos? Talvez um pouco mais formal, com outra aparência física, talvez mais séria, mais “adequada”. Talvez não estivesse dançando tanto, talvez estivesse falando mais sobre trabalho ou planos para o futuro. E quantas tantas outras expectativas relacionadas à idade podem surgir. 

Basta observar conversas cotidianas. Pessoas de cinquenta anos dizendo que já estão “velhas demais” para aprender tecnologia. Alguém de sessenta pedindo desculpas por começar uma atividade física. Ou comentários aparentemente inofensivos como: “isso é coisa de jovem”.

Fico pensando sobre as expectativas que tenho sobre mim em relação à minha idade, ‘nessa idade já deveria estar com a carreira mais avançada’, ‘com trinta e poucos não é o momento de aprender algo novo de lazer’, ‘na minha idade deveria estar me preocupando mais com o futuro’, ‘depois dos 30, piora’, ‘essa energia não é para a minha idade’. Todos esses pensamentos dão um enquadre bastante restrito às minhas experiências, usando a idade como um determinante para isso.  

Muitas vezes essas ideias são aprendidas muito cedo. Ainda bem jovens, já aprendemos o que “é esperado” de cada idade. Observo como esses estereótipos culturais sobre o envelhecimento influenciam a minha percepção de mim mesma no passado e também no futuro. E quando finalmente o futuro chega, essas histórias começam a se aplicar a nós mesmos.

A discriminação por idade, o etarismo, é um dos preconceitos mais difundidos na nossa cultura, embora muitas vezes passe despercebido. Esse tipo de discriminação influencia a forma como nos relacionamos com as pessoas, como, por exemplo, achar que pessoas de outra geração não vão entender ou não têm interesse em determinadas atividades, pura e simplesmente pela idade que elas têm. 

O etarismo influencia como nos organizamos como sociedade, afastando pessoas mais velhas de tomadas de decisões importantes e as excluindo de diversos ambientes. Profissionais de saúde, por exemplo, podem interpretar sintomas como “algo normal da idade”, deixando de investigar ou tratar condições que teriam solução.

E, também, influencia a nossa própria saúde física e mental. Quando temos ideias rígidas sobre a idade deixamos de dar atenção a outros fatores que podem estar influenciando nossa saúde. Podemos deixar de ter cuidados e não buscar tratamento que possam auxiliar no problema. Deixamos de estar presentes em situações novas, que poderiam nos trazer aprendizagens, boas relações e vitalidade. 

Com o envelhecimento, o impacto destas ideias pode ser negativo em aspectos psicológicos como: autoestima, senso de eficácia, expectativa de declínio, e em questões fisiológicas com maior estresse cardiovascular, pior recuperação após doenças e pior desempenho cognitivo.

Curiosamente, pesquisas mostram que pessoas com visões mais positivas sobre o envelhecimento tendem a cuidar mais da saúde, mantêm relações sociais mais ativas e até apresentam melhor recuperação física ao longo da vida.

Talvez aquela frase dita na festa não tenha sido exatamente um elogio ou uma crítica. Talvez tenha sido apenas um pequeno lembrete de quantas ideias carregamos sobre idade. Ideias que, muitas vezes, operam silenciosamente na forma como vemos os outros e a nós mesmos.