Qualificando Relações

Outubro rosa - o choque do diagnóstico

  • Sex, 14 de Outubro de 2016

    Todo ano no Brasil mais de 55.000 mulheres são diagnosticadas com câncer de mama. Por mais que haja o avanço da medicina no tratamento da doença, com grandes chances de cura, é difícil dissociar a palavra câncer de outras como morte, privação, tratamentos longos e dolorosos, mutilação, etc. A sensação de choque que a companha a maioria das mulheres que recebem a definição do diagnóstico, é a primeira de um processo de luto que irá acompanha-la e faze-la repensar o seu modo de viver e a sua vida como um todo.


    O Luto é um conjunto de reações diante de uma perda, que envolve uma sucessão de sensações que se mesclam e substituem. Entre o recebimento da notícia, a aceitação do diagnóstico e o início do tratamento, há um tsunami de sensações e pensamentos que acometem a mulher. O choque da notícia remete a dúvidas e perguntas inevitáveis: será que vou morrer? Será que o tratamento dará certo? Por que comigo? Este é o momento de confronto com a realidade e a percepção da finitude da vida.


    No caso do câncer de mama, são muitas as possibilidades de perdas que remetem ao luto: a possibilidade de morte, a necessidade de definição do tratamento onde pode haver a mutilação do corpo, comprometendo a imagem corporal; as limitações que o tratamento irá ocasionar, a dependência de outras pessoas, a sensação de não dar conta de si, o medo do futuro, a tristeza que pode se tornar depressão, etc. Independentemente do tratamento médico escolhido para enfrentar a doença, o caminho que persegue à CURA como uma possibilidade real, raramente é fácil de percorrer.


    Enfrentar um câncer é uma tarefa individual e também coletiva. Individual, quando a pessoa tem a missão intransferível de lidar com sentimentos como medo, angustia, desesperança, tristeza, etc.; e coletiva, quando frente a isto, precisará contar com um a rede de apoio, conforto e afeto, para enfrentar o desconhecido do tratamento.


    Buscar ajuda emocional pode ser tão importante quanto o tratamento médico. Encontrar um espaço para “dar palavras a dor”* pode ajudar entender o que está acontecendo na sua vida, e com isto estabelecer novas conexões com as pessoas, reavaliar as já existentes, acabar com algumas e reforçar as que realmente importam.


    O ser humano depende de outras pessoas e se constitui através destas relações. É capaz de enfrentar as maiores tragédias e de se reinventar diante delas. A beleza do humano está na sua capacidade de se ressignificar, renovar, reagir, o tempo todo, durante o tempo que for possível.


    A doença, o câncer, pode ser o fim de uma vida ou o início de uma nova forma de viver. A reação que aponta para a vida depende da forma como cada pessoa se constitui enquanto personalidade, singularidade, da rede de apoio em que está inserida e da determinação que terá para enfrentar a realidade.


    “Dai palavras à dor. Quando a tristeza perde a fala, sibila ao coração, provocando de pronto uma explosão” Shakespeare – Macbeth.

     

    Autora: psicóloga Ana Maria Dalagnese do CORA - Núcleo de Luto do CEFI