Qualificando Relações

O papel da psicologia no trabalho com a população LGBT

  • Qui, 04 de Janeiro de 2018

    Este texto busca apresentar de forma sucinta o papel da psicologia e da psicoterapia com a população LGBT, acrônimo generalista para designar lésbicas, gays, bissexuais (ou seja, pessoas não-heterossexuais) e pessoas trans ou transexuais (pessoas que foram designadas com um sexo ao nascerem e se identificam com outro). A ciência psicológica vem produzindo uma vasta literatura sobre os efeitos do estresse crônico a que pessoas LGBT são submetidas diariamente por viverem em contextos sociais invalidantes, hostis e violentos (American Psychological Association [APA], 2009; Meyer, 1995; 2003). Um dos pilares para a produção desse tipo de estudos é a compreensão do fenômeno do preconceito.

    O preconceito é uma inclinação para agir, pensar e sentir a respeito de determinados grupos e indivíduos. Simplificar, agrupar e generalizar são processos inerentes ao cérebro humano, por um princípio de economia cognitiva. A diferença entre a simples generalização e o preconceito é que esse último é baseado em hierarquias que estabelecem que certas pessoas são superiores e outras, inferiores, alimentando estereótipos, ou seja, visões distorcidas e generalistas a respeito de pessoas somente porque pertencem a um grupo ou segmento específico. Isso gera avaliações individuais com base em características negativas atribuídas a esse grupo/segmento. Essas hierarquias são fomentadas e tendem a crescer e se reproduzir em contextos nos quais a pluralidade humana não seja garantida e incentivada, e isso se torna especialmente alarmante quando consideramos a diversidade sexual e de gênero (Costa, 2015).

    A população LGBT está sujeita a escores alarmantes de preconceito, com consequências fisiológicas diretas e desfechos psicológicos negativos (Herek & Garnets, 2007). Existe uma relação significativa entre experiências de discriminação, expectativas de rejeição e homofobia/transfobia internalizadas (Meyer, 2003). Os impactos não são apenas simbólicos, subjetivos; são materiais, concretos. As pessoas sentem na pele a ferida do estigma, do ódio, da incompreensão, da apatia. Há pesquisas que apontam que a expectativa de vida de pessoas LGBT é reduzida em ambientes explicitamente contrários à diversidade sexual e de gênero, colocando essa população em risco para mortes por suicídio, homicídio e doenças cardiovasculares (Bockting et al., 2013; Lick, Durso, & Johnson, 2013).

    Existem achados que apontam que jovens LGBT que experimentam preconceito e rejeição na família e outras redes de apoio podem estar de quatro a oito vezes mais propensos a tentativas de suicídio (Costa et al., 2017; Haas et al., 2011; Ryan, Huebner, Diaz, & Sanchez, 2009). Mulheres lésbicas estão sujeitas à objetificação e auto-monitoramento persistentes, podendo ocasionar risco para transtornos alimentares (Feldman & Meyer, 2007). Ainda, os níveis de depressão, ansiedade, abuso de substâncias, tentativas de suicídio e suicídios consumados entre pessoas não-heterossexuais e transexuais são mais elevados do que na população heterossexual e não-transexual (King et al., 2008).

    As barreiras de acesso da população trans à saúde são diversas e carecem de um olhar mais cuidadoso pelos formuladores de políticas públicas e pelos próprios pesquisadores no contexto brasileiro. Ao antecipar o preconceito, travestis e pessoas trans deixam de frequentar os serviços de saúde; quando frequentam, são maltratadas e rechaçadas. Boa parte das pessoas trans recorre à prostituição como única forma de sobrevivência, pois não têm acesso à educação formal, redundando em portas fechadas no mercado de trabalho (Costa, 2015).

    De 2008 a 2013, foram reportados 539 assassinatos de travestis e pessoas trans no Brasil; esses números provavelmente são maiores, pois a subnotificação parece ser grande (Transgender Europe, 2013). No ambiente escolar, o bullying com viés de orientação sexual é uma experiência comum entre jovens gays, lésbicas e bissexuais; relatos de assédio, agressões físicas, perseguições, entre outras situações abusivas, são mais comuns do que gostaríamos de imaginar (APA, 2009; Herek & Garnets, 2007).

    As situações anteriores são apenas ilustrações dos agravos a que a população LGBT, em todos os seus segmentos, está exposta em diversos locais no mundo. E o Brasil tem sido considerado um dos lugares mais perigosos para ser LGBT. Uma vida de medo, abandono, vulnerabilidade e agressão pode gerar cicatrizes psicológicas profundas. As repercussões deletérias do preconceito e da discriminação não são conversa de defensores da “ideologia de gênero”, mas evidências baseadas numa série de estudos robustos e na vivência cotidiana e sistemática das pessoas vítimas desse processo de produção de morte. É isso que, no fim, o estigma, o preconceito e a discriminação produzem: morte subjetiva, social e física.

    Diante desse cenário, o papel de profissionais da psicologia é proporcionar acolhimento de qualidade para a população LGBT, tendo um entendimento adequado acerca da forma como a experiência de exposição à violência, preconceito e rejeição pode impactar a saúde mental e trazer uma série de prejuízos. Conforme orientações da American Psychological Association (2009), psicólogas e psicólogos devem receber treinamento e formação específicos em psicologia do preconceito e saúde mental da população LGBT, a fim de desenvolver práticas psicológicas afirmativas, informadas por evidências e culturalmente adequadas para reconhecer e validar as especificidades das vivências de pessoas LGBT. As ferramentas psicoterápicas afirmativas podem ajudar a reduzir os efeitos deletérios do estigma, minimizar o sofrimento, potencializar a resiliência, fortalecer redes de apoio, aumentar a assertividade e otimizar o funcionamento psicológico.

    Profissionais da psicologia que não se sentem suficientemente competentes para o trabalho LGBT-afirmativo podem procurar orientação com especialistas. Recentemente, foi disponibilizada pelo Conselho Regional de Psicologia do Rio Grande do Sul a tradução das “Diretrizes para práticas psicológicas com pessoas trans e em não-conformidade de gênero”, realizada por Ramiro Figueiredo Catelan e Angelo Brandelli Costa, que pode ser acessada no seguinte link: http://bit.ly/2jcF7l8

    É importante que a categoria da psicologia possa se engajar na defesa de outras trajetórias possíveis para quem não se encaixa no padrão de gênero e sexualidade que é estabelecido socialmente. Nesse sentido, as ferramentas de psicoeducação são fundamentais para garantir acesso e divulgação de informação de qualidade e combater distorções, estereótipos e inverdades que circulam sobre a população LGBT. O entendimento contemporâneo da ciência compreende que a homossexualidade (e demais orientações não-heterossexuais) e a transexualidade não se caracterizam como doenças, mas sim variações normais da orientação sexual e identidade de gênero. Não é uma questão de opinião ou posicionamento pessoal, mas de evidências nas quais profissionais da psicologia devem amparar seu trabalho.

    É um dever ético cruzar o limiar da indiferença em direção a posturas mais empáticas. A diferença está colocada na humanidade enquanto um fenômeno complexo. A vida é plural, diversa, múltipla, abundante, multifacetada. A diferença e a diversidade humana, mais especificamente a diversidade sexual e de gênero, precisa ser reconhecida, afirmada, validada e reforçada. Aquilo que diverge do que somos não deve nos ameaçar, reduzir ou anular, mas engrandecer, qualificar e ampliar.

    A psicologia vem produzindo teorias e ferramentas que podem ajudar a melhorar a qualidade de vida da população LGBT e construir uma sociedade com mais respeito e empatia, contrapondo um histórico de patologização e produção de estigma que infelizmente foram estimulados por determinadas correntes da psicologia. A população LGBT pode ser ajudada por psicólogas e psicólogos a se reestruturar cognitiva, comportamental e emocionalmente; ter outras visões de si, do mundo e do futuro; desenvolver estratégias assertivas de enfrentamento às adversidades; e construir uma vida que valha a pena ser vivida.

    A vida pode ser muito valiosa, mesmo diante da dor, do ódio e da incompreensão. Cada pessoa é preciosa e especial à sua maneira. Você que se sente discriminado, vulnerável, sem perspectiva: você não está sozinho. Procure ajuda na sua rede de apoio; sobretudo, procure apoio profissional com psicólogas e psicólogos de orientação afirmativa. É possível superar a desesperança; é possível reinventar sua história e construir uma existência cheia de valor. Afinal, a vida faz mais sentido quando pintada com múltiplas cores.

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    * Texto escrito por Ramiro Figueiredo Catelan, psicólogo, psicoterapeuta, mestrando em Psicologia Social e Institucional, pós-graduando em Terapia Cognitivo-Comportamental pelo CEFI, sendo monitor da sua turma. Trabalha como psicoterapeuta em consultório particular e desenvolve formações na área de gênero e sexualidade. Pesquisa principalmente nos seguintes temas: saúde da população LGBT, estigma relacionado ao HIV/AIDS, preconceito contra diversidade sexual e de gênero e adaptação de intervenções psicológicas para a população LGBT.

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    Referências

    American Psychological Association. (2009). Report of the Task Force on Gender Identity and Gender Variance. Washington, DC: Author.

    Bockting, W. O., Miner, M. H., Swinburne Romine, R. E., Hamilton, A., & Coleman, E. (2013). Stigma, mental health, and resilience in an online sample of the US transgender population. American Journal of Public Health, 103(5), 943-951.

    Costa, A. B., Pasley, A., Machado, W. de L., Alvarado, E., Dutra-Thomé, L., & Koller, S. H. (2017). The Experience of Sexual Stigma and the Increased Risk of Attempted Suicide in Young Brazilian People from Low Socioeconomic Group. Frontiers in Psychology, 8, 192.

    Costa, A. B. (2015). Vulnerabilidade para HIV em mulheres trans brasileiras. (Tese de Doutorado em Psicologia) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre.

    Haas et al. (2011). Suicide and suicide risk in lesbian, gay, bisexual, and transgender populations: review and recommendations. Journal of Homosexuality, 58(1), 10-51.

    Feldman, M. B., & Meyer, I. H. (2007). Eating Disorders in Diverse Lesbian, Gay, and Bisexual Populations. The International Journal of Eating Disorders, 40(3), 218–226.
    Herek, G.M., & Garnets, L.D. (2007). Sexual orientation and mental health. Annual Review of Clinical Psychology, 3, 353-375.

    King, M., Semlyen, J,, Tai, S. S., Killaspy, H., Osborn, D., Popelyuk, D., & Nazareth, I. (2008). A systematic review of mental disorder, suicide, and deliberate self harm in lesbian, gay and bisexual people. BMC Psychiatry, 8, 1-17.

    Lick, D. J., Durso, L. E., & Johnson, K. L. (2013). Minority stress and physical health among sexual minorities. Perspectives on Psychological Science, 8, 521-548.

    Meyer, I. H. (2003). Prejudice, social stress, and mental health in lesbian, gay, and bisexual populations: Conceptual issues and research evidence. Psychological Bulletin, 129, 674-697.

    Meyer, I.H. (1995). Minority stress and mental health in gay men. Journal of Health and Social Behavior, 36, 38-56.

    Ryan, C., Huebner, D., Diaz, R. M., & Sanchez, J. (2009). Family Rejection as a Predictor of Negative Health Outcomes in White and Latino Lesbian, Gay, and Bisexual Young Adults. Pediatrics, 123(1), 346-352.

    Transgender Europe. (2013). TDOR Press Release. 13 nov. 2013.Transgender Europe. (2013). TDOR Press Release. 13 nov. 2013.