Qualificando Relações

FALANDO SOBRE “13 REASONS WHY”

  • Qua, 26 de Abril de 2017

    A nova produção da Netflix, “13 Reasons Why”, tem sido um dos assuntos mais falados e comentados ultimamente. A série traz à tona um relato autêntico do conturbado período que é a adolescência. Depois de sofrer abusos físicos, sexuais e psicológicos, a protagonista Hannah Baker de 17 anos, vê-se destruída a ponto de enxergar apenas uma solução para seus problemas: pôr fim à própria vida. Duas semanas depois, Clay Jensen, colega de classe que é apaixonado por Hannah, encontra uma misteriosa caixa com várias fitas cassete à porta de casa. À medida em que ele escuta, as fitas narram relatos da vítima dando a sua perspectiva das situações pelas quais ela passou e que culminaram em sua decisão final. O conteúdo das fitas é bastante imersivo, colocando o telespectador figurativamente no papel da vítima de uma forma profunda.

    BULLYING E SUICÍDIO
    No desenrolar da história, percebemos que o bullying sofrido pela protagonista é bastante relevante para que ela tenha cada vez mais certeza sobre pôr fim à própria vida.
    O bullying se refere a todas as formas de atitudes agressivas, verbais ou físicas, intencionais e repetitivas, que ocorrem sem motivação evidente e são exercidas por um ou mais indivíduos, causando dor e angústia na vítima. O suicídio, em alguns casos, pode ser a solução encontrada pelas vítimas de bullying para acabar com o seu sofrimento. A Organização Mundial de Saúde (OMS) aponta o suicídio como uma epidemia social, responsável pela morte anual de 800 mil pessoas - principalmente em países pobres e emergentes. A ocorrência de casos entre a adolescência é encarada com preocupação pela instituição sanitária, crítica aos métodos de enfrentamento adotados em nações onde o silêncio é, muitas vezes, estratégia recorrente para tratar do assunto.
    Cometer o ato extremo de ceifar a própria vida é, por definição, uma decisão individual, mas a sustentação das circunstâncias capazes de compelir alguém ao suicídio deve ser compreendida como uma falha coletiva subsidiada tanto por comportamentos aparentemente inofensivos do cotidiano como por omissões da rede de convivência social e familiar. A série, dessa forma, busca discutir as ações (ou a falta delas) cotidianas das pessoas que podem ser prejudiciais a pessoas com transtornos mentais e tendências suicidas. O objetivo central parece ser proporcionar aos telespectadores uma reflexão: que tipo de consequências estão tendo meus atos? Estou atento às fragilidades das pessoas próximas a mim? Estou sabendo lidar com essas fragilidades?

    DEBATE A RESPEITO DO ASSUNTO: “BOM OU RUIM”?
    Muito tem sido discutido sobre ver ou não a série, falar ou não sobre suicídio. Nas redes sociais, vemos opiniões divididas sobre o assunto: por um lado, as pessoas estão sentindo-se compreendidas pelo fato da série falar sobre algo que aconteceu e acontece em sua própria vida e que há dificuldade em ser falado; por outro lado, há pessoas recomendando que a série não seja vista, pois pode incentivar os jovens a fazerem algo que ainda não tiveram coragem.
    A série traz um conteúdo bastante pesado e que pode ser disparador de gatilhos para pessoas com instabilidade emocional. Possui cenas fortes, incluindo a do suicídio da protagonista. Estudos afirmam que a exposição a esse tipo de conteúdo pode aumentar o número de casos semelhantes. Por outro lado, 13 reasons why foi bastante feliz em abordar a temática do bullying e das agressões e sua possível relação com o suicídio na adolescência. A série demonstra claramente que existe uma dificuldade da sociedade em falar sobre esse assunto com os jovens, e que nossas estratégias de prevenção não tem sido as melhores. Dessa forma, entende-se que o conteúdo trazido na série pode ser benéfico e disparador de muitas discussões sobre o tema, o que seria ótimo em termos de prevenção ao suicídio. Contudo, é importante que pais e responsáveis fiquem atentos ao tipo de conteúdo que seus filhos estão assistindo e que possam aproveitar a oportunidade para dialogar com os jovens.
    Texto de Marjana Siqueira e Paula Portugal