Qualificando Relações

Como controlar as emoções?

  • Seg, 14 de Março de 2016

    Muitas pessoas exaltaram ou criticaram o comportamento da participante Ana Paula do BBB, que foi expulsa da casa por agredir um dos participantes. Faz sentido. Quem nunca dar um tapa em alguém que lhe disse algo desagradável? Ou sofreu, estando do outro lado, sendo alvo de uma explosão injustificada? Pode parecer libertador ver alguém fazendo "o que dá na telha" como tantas vezes Ana Paula fez no BBB, ou, ainda, gerar indignação o aparente descaso com os limites do outro.
    Entretanto, essa aparente liberdade às vezes esconde algo muito mais incômodo e doloroso. Ultrapassar os limites do outro pode ser muito mais uma impossibilidade de reagir de outro modo do que uma verdadeira escolha. São os casos em que há uma desregulação emocional tão intensa que pode levar a comportamentos extremos como agressões e tentativas de suicídio.

     

    A desregulação emocional consiste em um limiar muito baixo para sentir emoções intensas e um lento retorno ao estado de calma, associados a uma dificuldade em modular as emoções e responder a elas de uma forma efetiva e sensível ao contexto. Para estas pessoas, é muito difícil tolerar aquilo que sentem e escolher como reagir. Isso decorre de predisposições biológicas combinadas a experiências de vida traumáticas, vivenciadas em um ambiente que não soube validar as respostas emocionais da pessoa, tampouco ensinar-lhe formas efetivas de lidar com emoções e com problemas do dia a dia. A alta sensibilidade emocional e a falta de habilidades para lidar com tais emoções fazem com que pessoas com desregulação tenham comportamentos impulsivos, que aliviam um pouco do sofrimento sentido, mas trazem consequências não desejadas - geralmente o afastamento de pessoas queridas, e às vezes até riscos à própria vida.


    Sendo assim, atos impulsivos, ou aparentemente desproporcionais à situação que os motivou, podem não ser uma escolha ou um ato de sinceridade ou espontaneidade, mas respostas desesperadas a uma dor emocional muito intensa, as quais produzem mais sofrimento e levam a grandes dificuldades interpessoais. Isso coloca a pessoa em um ciclo de sofrimentos que só se ampliam, podendo levar a consequências trágicas, caso ela não receba auxílio adequado. Por isso é fundamental saber separar a desregulação emocional de simples variações de estilos de vida.


    É importante que os profissionais da saúde mental saibam reconhecer quando uma pessoa sofre por ter desregulação emocional e saibam indicar tratamentos efetivos para reduzir o sofrimento causado por essa condição. Um exemplo é a Terapia Comportamental Dialética, uma abordagem terapêutica com grande evidência de efetividade, cujo modelo de intervenção foi desenvolvido especificamente para abordar a complexidade da desregulação emocional em seus diversos componentes: instabilidade comportamental, cognitiva, interpessoal e da noção de si mesmo. À população em geral, mais que criticar ou elogiar tais comportamentos, é importante tentar compreender de onde vêm e orientar as pessoas que estão em uma situação de tamanho descontrole a buscarem auxílio, para que saibam que é possível construir uma vida com mais equilíbrio e que valha a pena ser vivida.